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Descubra as “memórias” dos “Ideogramas” de Cida Lima

Artigo

Descubra as “memórias” dos “Ideogramas” de Cida Lima

A exposição apresenta registos e resíduos do processo criativo.

Andrade Lino
7/9/2018
Descubra as “memórias” dos “Ideogramas” de Cida Lima
Foto por:
Andrade Lino

A artista plástica brasileira Cida Lima inaugurou, nesta quarta-feira, no Centro Cultural Brasil – Angola, em Luanda, a sua exposição de pintura e escultura, denominada “Ideogramas - Poética da Memória”, projecto que é um breve relato sensível da sua trajectória em África, remetendo o público ao seu primeiro trabalho realizado em Moçambique, que começou com uma pesquisa estética de rostos femininos. 

Em entrevista ao ONgoma News, a artista contou que tudo começou quando morava no Quénia. “Na época, fui ao lançamento de um romance histórico de uma grande amiga minha brasileira, e ao ler o romance, conheci os ideogramas, cujo livro está também exposto, por isso a exposição se chama “Poética da Memória”. Ali, eu me encantei com essa escrita e comecei a fazer pesquisas. Vi que são imagens lindas, e eu venho de uma cidade com uma enorme influência africana, que é o Salvador, no Estado na Baía, Brasil. Era impossível não olhar para aquilo com curiosidade e identificação, porque tem muito a ver connosco”, relatou Cida Lima, tendo afirmado que foi como se achasse um caminho.

“O processo mostrou-se uma coisa linda, e como eu sou educadora de arte, decidir trabalhar com os meninos na escola, para mostrar esses ideogramas. Fui convidada a fazer uma exposição no Brasil em Janeiro, tinha que realizar também um workshop aqui em Angola, porque estou sempre a dar formações, e então achei importante trazer aqui a exposição, principalmente por causa dos estudantes do Instituto Superior de Artes Visuais, com quem tenho muito contacto”, revelou.

A exposição apresenta ainda registos e resíduos do processo criativo, e de acordo com a também escultora, a ideia é mostrar para os jovens que pertencem a uma geração que infelizmente desconhece um pouco a sua história, por conta da guerra e da situação política que o país viveu durante muito tempo.

“Então, a memória dos jovens não tem isso. Ao longo dos trabalhos, fui convidada a fazer outro desdobramento, que é uma colecção de jóias que está também exposta, resultante duma pesquisa estética”, disse, e questionada sobre a sua sensibilidade ao trabalhar com os jovens estudantes, partilhou que, para além da língua e da identidade, é impossível não ter esse contacto com a população.

“Há alunos que trabalharam comigo e que me ensinaram muito sobre ideogramas e outras coisas que eu não sabia, e isso foi maravilhoso. A experiência com os estudantes de Arquitectura e de Artes Visuais é maravilhosa. Este contacto de troca é gratificante, essa mão-de-obra que se forma agora tem sido importante tanto para mim como para eles, trazendo coisas com as quais ainda não estávamos familiarizados”, expressou.

Para Cida Lima, a coisa mais importante nesse processo criativo é mostrar a resistência africana, porque os colonizadores apagaram das escolas as memórias e tiraram delas a escrita. “Quer dizer, apesar de tudo, a resistência africana mantém-se viva nos ideogramas. Não está nas escolas, porém está presente duma forma muito rica na sociedade dos países que têm esta escrita patente”, explicou.

Relativamente à parceria que mantém com aquele centro de cultura, lembrou que sempre está a trabalhar com o CCBA, pela facilidade da embaixada brasileira em fazer grande questão de divulgar e desenvolver formação aqui. “Para mim, é uma honra muito grande ter a embaixada brasileira e o centro de cultura, que afinal serve mesmo para isso”, finalizou a pintora.

Nídia Klein, directora-geral do Centro Cultural Brasil - Angola

Nídia Klein, directora-geral do CCBA, por sua vez, clareou que essa exposição faz parte do Mês da Cultura Brasileira em Angola, em função dos 196 anos de independência do Brasil, e calhou que a Cida veio morar em Luanda, e trouxe consigo essa série de quadros que fez, enquanto morou no Quénia, a partir de um estudo de uma antropóloga brasileira, sobre uma escrita que desapareceu, “mas que para nós faz muito sentido, sendo que muitos desses símbolos integram religiões de matriz africana, especialmente no candomblé, em reverência de algumas entidades, como o Xangô e Oxalá”.

“No entanto, entendemos que é importante trazer esse resgate de símbolos africanos e que têm uma ligação com o Brasil, justamente para mostrar à população em geral o que é que já houve, e que se não houver um registo digno de nota, vai realmente se perder, como a autora fez nos quadros alguns rabiscos para mostrar que aquilo foi desaparecendo, por ninguém estudar. Esses símbolos já fizeram parte de Angola também, logo é uma volta ao vosso passado que trazemos”, realçou a responsável, porém referiu que, no Brasil, têm ganhado cada vez mais força, principalmente por causa das entidades que representam.

Sobre a finda exposição itinerante “A Língua Portuguesa em Nós”, que marcou os meses de Julho e Agosto, afirmou ter tido um número super expressivo de visitantes, contabilizados em cerca 7 mil, entre os que se inscreveram e os que fizeram visitas espontâneas, o que para a instituição foi um marco na história destes seus três anos, “pois a exposição não só trouxe público de diversas idades e níveis sociais, estrangeiros e nacionais, como foram várias actividades paralelas realizadas”.

“Queremos manter esse ritmo de actividades, de forma que o público angolano continue a nos visitar para esse intercâmbio”, precisou.

Andrade Lino
Jornalista e Fotógrafo

Amante das artes visuais e da escrita, além de jornalista e fotógrafo, Andrade Lino é também estudante do curso de Licentura em Língua Portuguesa e Comunicação na Universidade Metodista de Angola. Nos tempos livres é músico e produtor.

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