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“Passeios” do Kuduro e vivências emocionantes marcam o mais recente livro de Kalaf Epalanga

Artigo

“Passeios” do Kuduro e vivências emocionantes marcam o mais recente livro de Kalaf Epalanga

“Também os brancos sabem dançar” é o primeiro livro do autor lançado em Luanda.

Andrade Lino
14/11/2018
“Passeios” do Kuduro e vivências emocionantes marcam o mais recente livro de Kalaf Epalanga
Foto por:
Andrade Lino

Sob égide do colectivo cultural Pés Descalços, o escritor angolano Kalaf Epalanga, residente em Berlim, apresentou, numa conversa com a actriz Tânia Burity e o analista social Tiago Costa, no espaço Elinga Teatro, o seu mais recente livro, denominado “Também os brancos sabem dançar”, o primeiro lançado em Luanda, na passada sexta-feira.

Com mais de trezentas páginas, a obra literária, lançada há um ano, pela Editora Caminho, é a auto-ficção de um músico e escritor angolano que chega de trem à fronteira entre Suécia e Noruega, e juntamente com a sua banda, pretende apresentar-se em Oslo, e começa justamente com a detenção de Kalaf, por tentativa de imigração ilegal, não tendo um passaporte válido para mostrar.

O romance é uma homenagem à música e cultura angolana e uma forte reflexão sobre identidade, onde o autor narra com alguma graça muitos dos encontros que viveu, propiciados pela escrita e pela música, enquanto membro da banda Buraka Som Sistema.

Além de um acervo de memórias pessoais, trata-se de uma meia biografia do género Kuduro, da cena musical de Lisboa e de como o estilo rompeu fronteiras, apesar da marginalização do mesmo.

Uma semana antes de ser entregue à editora, contou o autor, o livro chamava-se “Van Damme inventou o kuduro”, por ter de alguma forma um pé na história, sendo que o Tony Amado, co-mentor do estilo, inventou a dança por causa duma cena do filme “Kickboxer”, daquele actor belga.  

“Todos os angolanos a quem eu disse o título disseram que me iriam retirar a nacionalidade, e perguntaram como é possível eu dizer que o Van Damme inventou o kuduro, quando o Tony Amado e o Sebem andaram a gastar pestanas para dar vida ao estilo. Achei que o livro precisava ter um título chamativo para o Europeu, com a intenção de vender. E o Van Damme seria esse gancho, mas obviamente ouvi os meus compatriotas e não quis deixar de ser bem recebido”, revelou Kalaf Epalanga.

Outra curiosidade é que o escritor viu-se incentivado pelo seu homólogo José Eduardo Agualusa a escrever sobre o assunto, através de um provérbio em kimbundu que aprendeu com o mesmo, “Também os brancos conhecem boas canções”, dito em português, e uma das leituras que se pode ter do provérbio, referiu, é que não devemos julgar ninguém pelas aparências.

“O cantar não fazia muito sentido para mim, queria Kuduro e o Kuduro é muito a dança, então achei que seria o verbo perfeito. Ao longo do livro todo, tento ir atrás dessa busca de dignidade, busca de provar ao leitor que, e embora muita gente não goste de Kuduro e os fazedores são considerados delinquentes por uma grande maioria, ainda assim acho que não é preciso julgar ninguém pelas aparências, porque toda arte tem algo de valor”, partilhou.

A música é um personagem do livro, e existem personagens fictícias, assim como o Kalaf que aparece é uma projecção, uma figura exagerada do autor, o polícia que o prendeu, a Sofia, professora de Kizomba, dentre outros, esses são reais.

O músico defende que ninguém nos vai ensinar a gostar de nós mesmos, temos que gostar daquilo que fazemos, por isso não se cansa de falar e trazer o Kuduro, mesmo que não estivesse envolvido num grupo.

“Não me canso de dizer que o Nagrelha e a Titica são pessoas realmente incríveis. O que eles fazem não é comum, há culturas que dariam um braço para terem figuras que nós temos”, afirmou.

Uma parte do livro é expressa com o estilo Kizomba, por serem os primeiros produtores de Kuduro por ele influenciados, e para quem teve contacto com o seu segundo livro “O angolano que comprou Lisboa por metade do preço”, na obra, Kalaf lança um desafio aos dirigentes, homens de cultura e de pensamento, sobre a importância de se criar um museu da Kizomba.

A ideia é essencialmente dar um pouco de dignidade ao homem dos PALOPs e, “se olharmos para a história, já não temos essa memória. Celebramos os feitos do C4 e do Anselmo, esquecendo que existiram arquitectos deste género, que estavam numa periferia cultural, a lutarem por um pouco de respeito por aquilo que estavam a criar”, explicou.

“Achei que tinha que incluir a Kizomba no livro, porque representa o espaço onde o africano em Portugal ganhava um pouco da sua dignidade. Durante a semana era o pedreiro, padeiro, barbeiros e etc, mas chegava a sexta-feira, punha o seu melhor fato, ia dançar, e naquela pista, eram eles mesmos, a dançar como homens e mulheres livres. Daí que digo que devemos criar um museu da kizomba, porque salvou muita gente”, esclareceu.

Há ainda na obra passagens de quando Kalaf conhece o DJ Znóbia, momento em que tentou trazer a Luanda CDs dos Buraka Som Sistema, enfim, relatos de “como é incomum ver um africano na Noruega, um negro atravessar aquela fronteira, afirmando-se músico, para entreter a população local no maior festival da região”.

Andrade Lino
Jornalista e Fotógrafo

Amante das artes visuais e da escrita, além de jornalista e fotógrafo, Andrade Lino é também estudante do curso de Licentura em Língua Portuguesa e Comunicação na Universidade Metodista de Angola. Nos tempos livres é músico e produtor.

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